a. A Doutrina na História
A doutrina da perseverança dos santos tem o sentido de que aqueles que Deus regenerou e chamou eficazmente para um estado de graça não podem cair nem total nem definitivamente, mas certamente perseverarão nele até o fim e serão salvos para toda a eternidade.
Quem primeiro ensinou explicitamente esta doutrina foi Agostinho, embora não fosse coerente neste ponto, como se poderia esperar dele, um rigoroso predesticionista. Ele sustentava que os eleitos não podem cair de modo que se percam definitivamente, mas, ao mesmo tempo, achava possível que alguns que foram revestidos da nova vida e da fé verdadeira possam cair completamente da graça, e , por fim, sofrer a condenação eterna.
A igreja romana com o seu semipelagianismo, inclusa a doutrina do livre arbítrio, negava a doutrina da perseverança dos santos e colocava a perseverança destes na dependência da incerta obediência humana.
A igreja luterana voltou a fazê-la incerta, atribuindo-lhe dependência da contínua atividade da fé, por parte do homem, e pressupondo que os crentes verdadeiros podem cair completamente da graça.
Somente nas igrejas calvinistas é que a doutrina é defendida numa forma que lhe dá segurança absoluta.
Os arminianos rejeitaram est6e conceito e proclamaram, que a perseverança dos crentes depende da sua vontade de crer e das suas boas obras.
b. Exposição da Doutrina
A expressão “perseverança dos santos” está sujeita a ser mal compreendida. A doutrina não pretende ensinar apenas que os eleitos serão certamente salvos no final, mas ensina mui especificamente que jamais poderão cair completamente desse estado, e , daí, deixar de alcançar a salvação eterna, apesar de poderem, às vezes, ser dominados pelo mal e cair
Os reformadores, porém, não consideram a perseverança dos santos como sendo, acima de tudo, uma disposição ou atividade do crente, embora certamente creiam que o homem coopera nela, exatamente como coopera na santificação. Eles até acentuam o fato de que o crente cairia, se fosse deixado entregue a si mesmo. Estritamente falando, é Deus quem persevera, não o homem.
Pode-se, portanto, definir a perseverança como a contínua operação do Espírito Santo no crente, pela qual a obra da graça divina, iniciada no coração, tem prosseguimento e se completa.
É porque Deus nunca abandona a sua obra que os crentes continuam de pé até o fim.
c. Prova Bíblica da Doutrina
c. Afirmações Diretas da Escritura
Há algumas passagens importantes da Escritura que consideraremos aqui: Jo 10:27-29; Rm 11:29; Fp 1:6; II Ts 3:3; II Tm 1:12
d. Provas Por Inferência
b.1 Da Doutrina da Eleição: A eleição não significa apenas que alguns favorecidos por certos privilégios externos e poderão ser salvos, se cumprirem com o seu dever, mas, sim, que aqueles que pertencem ao número dos eleitos serão finalmente salvos e nunca ficarão aquém da salvação perfeita.
b.2 Da Doutrina da Aliança da Redenção: Na aliança da redenção Deus deu o seu povo ao sei filho como recompensa pela obediência e pelo sofrimento deste. Esta recompensa foi estabelecida na eternidade pretérita e não foi submetida à condição de alguma fidelidade incerta do homem. Deus não volta atrás, em sua promessa, e, portanto, é impossível que aqueles que são considerados como unidos a Cristo e como partes da sua recompensa, possam separar-se dele (Rm 8:38,39).
b.3 Da Eficácia dos Méritos e da Intercessão de Cristo: Em sua obra expiatória, Cristo pagou o preço necessário para adquirir o perdão e a divina aceitação do pecador. A justiça de Cristo constitui a base perfeita para a justificação do pecador, e é impossível que aquele que é justificado pelo pagamento de um preço tão perfeito e eficaz fique de n ovo debaixo da condenação. Ademais, Cristo faz constante intercessão por aqueles que lhe são dados pelo Pai (Jo 11:42; Hb 7:25).
b.4 Da União Mística com Cristo: Os que estão unidos a Cristo pela fé, tornam-se participantes do seu Espírito e, assim, tornam-se um corpo com ele, pulsando neles a vida do Espírito. É impossível que eles sejam retirados do corpo e, assim, frustremos o ideal divino. A união é permanente, visto que se origina numa causa permanente e imutável – o livre e eterno amor de Deus.
b.5 Da Obra que o Espírito Santo realiza no Coração: Diz corretamente Dabney: “é uma inferior e indigna avaliação da sabedoria do espírito Santo e da sua obra no coração humano, supor que ele comece a obra agora e, logo em seguida, a abandone. Segundo a escritura, já nesta vida o crente está de posse da salvação e da vida eterna (Jo 3:36; Jo 5:24; Jo 6:54). Poderíamos partir da suposição de que a vida eterna não é eterna.
b.6 Da Segurança da Salvação: É evidente na Escritura que os crentes podem, nesta existência, alcançar a segurança da salvação (Hb 3:14; Hb 6:11; Hb 10:22; II Pe 1:10). Isso estaria fora de questão, se fosse possível aos crentes cair da graça a qualquer momento. Essa segurança só pode ser desfrutada por aqueles que estão com a firme convicção de que Deus aperfeiçoará a obra que começou.
d. Objeções à Doutrina
iv. Não se Harmoniza Com a Liberdade Humana
Dizem que a doutrina da perseverança é incoerente com a liberdade humana.
Mas, esta objeção parte da falsa pressuposição de que a verdadeira liberdade consiste na liberdade da indiferença, ou no poder de fazer escolha contrária em questões morais e espirituais. Contudo, isto é errôneo. A verdadeira liberdade consiste exatamente na autodeterminação rumo à santidade. O homem nunca é mais livre do que quando se move conscientemente em direção a Deus. E o Cristão está com essa liberdade pela graça de Deus.
v. Leva à Indolência e à Imoralidade
Assevera-se confiadamente que a doutrina da perseverança conduz à indolência, ao abuso e até à imoralidade. Dela resulta uma falsa segurança, é o que diz.
Entretanto, esta é uma noção equivocada, pois, conquanto a Bíblia nos diga que somos guardados pela graça de Deus, ela não fomenta a idéia de que deus nos guarda sem que de nossa parte haja constante vigilância, diligência e oração.
vi. É Contrária à Escritura
c.1 Há advertências contra a apostasia que pareceriam completamente sem razão de ser, se o crente não pudesse cair (Mt 24:12; Cl 1:23; Hb 2:1; I Jo 2:6). Porém, estas advertências consideram a questão toda a partir do lado do homem. Elas incitam os crentes ao exame de si mesmos e servem de instrumentos para mantê-los no caminho da perseverança. Comparando-se At 27:22-25 com o versículo 31, tem-se uma ilustração deste princípio.
c.2 Também há exortação que concitam os crentes no caminho da santificação, o que parece desnecessário, se não há dúvida de que eles permanecerão até o fim. Contudo, não devemos nos esquecer que Deus usa meios morais para a realização de fins espirituais.
c.3 Dizem ainda que a Escritura registra diversos casos de apostasia concretizada (I Tm 1:19,20; II Tm 2:17,18; II Pe 2:1,2). Todavia, estes exemplos não provam a alegação de que os crentes verdadeiros, de posse da verdadeira fé salvadora, podem cair da graça, a não ser que se demonstre primeiro que as pessoas indicadas nessas passagens tinham a verdadeira fé em Cristo, e não uma simples fé temporal, não arraigada na regeneração. A Bíblia nos ensina que há pessoas que professam a fé verdadeira e que, todavia, não pertencem à fé (Rm9:6; I Jo 2:19; Ap 3:1). De alguns deles diz João: “Eles saíram do nosso meio ... entretanto, não eram dos nossos: porque, se tivessem sido dos nossos, teriam permanecido conosco” (I Jo 2:19).
APÊNDICE
DA PERSEVERANÇA DOS SANTOS
I. Os que Deus aceitou
Fil. 1: 6; João 10: 28-29; I Ped. 1:5, 9.
II. Esta perseverança dos santos não depende do livre arbítrio deles, mas da imutabilidade do decreto da eleição, procedente do livre e imutável amor de Deus Pai, da eficácia do mérito e intercessão de Jesus Cristo, da permanência do Espírito e da semente de Deus neles e da natureza do pacto da graça; de todas estas coisas vêm a sua certeza e infalibilidade. ,
II Tim. 2:19; Jer. 31:3; João 17:11, 24; Heb 7:25; Luc. 22:32; Rom. 8:33, 34, 38-39; João 14:16-17; I João 2:27 e 3:9; Jer. 32:40; II Tess. 3:3; I João 2:19; João 10:28.
III. Eles, porém, pelas tentações de Satanás e do mundo, pela força da corrupção neles restante e pela negligência dos meios de preservação, podem cair em graves pecados e por algum tempo continuar neles; incorrem assim no desagrado de Deus, entristecem o seu Santo Espírito e de algum modo vêm a ser privados das suas graças e confortos; têm os seus corações endurecidos e as suas consciências feridas; prejudicam e escandalizam os outros e atraem sobre si juízos temporais.
Sal. 51:14; Mat. 26:70-74; II Sam. 12:9, 13; Isa. 64:7, 9; II Sam. 11:27; Ef. 6:30; Sal. 51:8, 10, 12; Apoc. 2:4; Isa. 63:17; Mar. 6:52; Sal. 32:3-4; II Sam. 12:14; Sal. 89:31-32; I Cor. 11:32.
DA CERTEZA DA GRAÇA E DA SALVAÇÃO
I. Ainda que os hipócritas e os outros não regenerados podem iludir-se vãmente com falsas esperanças e carnal presunção de se acharem no favor de Deus e em estado de Salvação, esperança essa que perecerá, contudo, os que verdadeiramente crêem no Senhor Jesus e o amam com sinceridade, procurando andar diante dele em toda a boa consciência, podem, nesta vida, certificar-se de se acharem em estado de graça e podem regozijar-se na esperança da glória de Deus, nessa esperança que nunca os envergonhará.
Deut. 29:19; Miq. 3:11; João 5:41; Mat. 8:22-23; I João 2:3 e 5: 13; Rom. 5:2, S; II Tim. 4:7-8.
II. Esta certeza não é uma mera persuasão conjectural e provável, fundada numa falsa esperança, mas uma infalível segurança da fé, fundada na divina verdade das promessas de salvação, na evidência interna daquelas graças a que são feitas essas promessas, no testemunho do Espírito de adoção que testifica com os nossos espíritos sermos nós filhos de Deus, no testemunho desse Espírito que é o penhor de nossa herança e por quem somos selados para o dia da redenção.
Heb. 6:11, 17-19; I Ped. 1:4-5, 10-11; I João 3:14; Rom.8:15-16; Ef.1: 13-14, e 4:30; II Cor.1:21-22.
III. Esta segurança infalível não pertence de tal modo à essência da fé, que um verdadeiro crente, antes de possuí-la, não tenha de esperar muito e lutar com muitas dificuldades; contudo, sendo pelo Espírito habilitado a conhecer as coisas que lhe são livremente dadas por Deus, ele pode alcançá-la sem revelação extraordinária, no devido uso dos meios ordinários. É, pois, dever de todo o fiel fazer toda a diligência para tornar certas a sua vocação e eleição, a fim de que por esse modo seja o seu coração no Espírito Santo confirmado em paz e gozo, em amor e gratidão para com Deus, em firmeza e alegria nos deveres da obediência que são os frutos próprios desta segurança. Este privilégio está, pois, muito longe de predispor os homens à negligência.
I João 5:13; I Cor. 2:12; I João 4:13; Heb. 6:11-12; II Ped. 1:10; Rom. 5:1-2, 5. 14:17, e 15:13; Sal. 119:32; Rom. 6:1-2; Tito 2:11-12, 14; II Cor. 7: 1; Rom. 8: 1; 12; I João 1:6-7, e 3:2-3.
IV. Por diversos modos podem os crentes ter a sua segurança de salvação abalada, diminuída e interrompida negligenciando a conservação dela, caindo em algum pecado especial que fira a consciência e entristeça o Espírito Santo, cedendo a fortes e repentinas tentações, retirando Deus a luz do seu rosto e permitindo que andem em trevas e não tenham luz mesmo os que temem; contudo, eles nunca ficam inteiramente privados daquela semente de Deus e da vida da fé, daquele amor a Cristo e aos irmãos, daquela sinceridade de coração e consciência do dever; dessas bênçãos a certeza de salvação poderá, no tempo próprio, ser restaurada pela operação do Espírito, e por meio delas eles são, no entanto, suportados para não caírem no desespero absoluto.
Sal. 51: 8, 12, 14; Ef. 4:30; Sal. 77: 1-10, e 31:32; I João 3:9; Luc. 22:32; Miq. 7:7-9; Jer. 32:40; II Cor. 4:8-10.
